“Tem coisas, e cousas, e o ó da raposa”, diz Riobaldo, nas veredas do Grande Sertão.
Escrevo porque me assombra a possibilidade de usar o verbo. Que cousa: Riobaldo, pra mim, é o ó.
A ciência poética da linguagem é Manoel de Barros deslocando significados com ossinhos de esqueletos de palavras, enterradas no pó de tantos usos. Aí o Manoel recupera-lhes a alma, e palavras habitadas são a origem das coisas e cousas, e do ó das raposas.
Minha escrita é menos, contudo me fio nesse veio. Quase sempre. É mais também, porque me romanceio, e quisera ser personagem de cordel.
Escrever é estar a escrever-se, mesmo quando nada a ver nas entranhas do que acreditamos ser. Essa coisa de “eu” – parafraseio Rosa – não se tira das coisas ditas e feitas: ela rodeia o quente da pessoa.
Minha escrita é o quente que me rodeia.
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Palavra Vertida
por Ione Mattos